Litros de tintas são desperdiçados, de tempos em tempos, tentando explicar a diferença entre meninos e meninas. Há os que apostam nas discordâncias, como o célebre "Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus". Há os que apostam na atração, como o "Por que os homens amam as mulheres poderosas" e há obras científicas, isentas e equilibradas como a Bíblia Sagrada.
Como esse parece ser assunto que rende best sellers, nosso humilde blog não poderia deixar de beliscar esse filão.
Claro que o assunto não é fácil, a conclusão não é simples e demanda anos e anos de estudos, testes, análises e músicas do Chico Buarque, mas não é uma tarefa impossível. A prova disso é que hoje mesmo, passando pelo jardim do condomínio, pude observar duas crianças de sexos opostos, com comportamentos bem estereotipados e psicografei uma brilhante conclusão.
Tenham essas palavras sempre em mente, caros leitores, quando estiverem lidando com indivíduos do sexo oposto, num momento de conflito, discordância ou exaltação pela atenção gasta com o Playstation, o jogo de futebol, o carteado, o filme do Bruce Lee - pela décima oitava vez na Tela Quente, exibindo selo de inédito na propaganda - em oposição ao Shopping, à louça na pia, à novela, ao Shopping de novo e ao penteado-super-inovador-que-se-parece-com-o-anterior-mas-que-tem-um-dedo-a-menos.
A fonte de toda indignação, todo beicinho, toda manha, discussão, homicídios e suicídios entre sexos opostos reside no simples fato de que cada gênero compartilha com seus semelhantes, uma visão muito peculiar do que significa ser uma pessoa adulta, independente, madura e dona de si.
Enquanto os meninos imaginam que atingirão esse estágio após terem trabalhado, juntado dinheiro, comprado um foguete, ultrapassado a velocidade do som, viajado para Marte, fincado uma bandeira em solo alienígena e baixado as calças para urinar e perpetuar sua cadeia genética fora da Terra. A meninas pensam que atingirão tal estágio quando conseguirem dar os três passinhos e alcançar o outro sofá.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Vida de condomínio: Sabedoria popular
Há cerca de dois meses um e-mail me assombrou com um item na coluna de gastos, indicando mil e seiscentos reais com quatro tapetes. Era a prestação de contas do condomínio. Os quatro tapetes seriam postos um na entrada de cada torre. Depois do assombro, veio a curiosidade. Vejam bem: mil e seiscentos reais não é para qualquer tapete. Eu desejava muito apreciar a obra exposta no hall do edifício.
A obra de arte, que deveria logo estar "disponível", como dizia o e-mail, não apareceu. Continuei minha rotina, cansada, suada, desgastada, de limpar os pés num capacho qualquer. Um capachinho simples de vinil, prático e eficiente na porta de entrada, daqueles que parecem pelos pubianos de borracha.
Não havia registros nos anais do condomínio de reclamação contra o capacho de pelos pubianos. Pelo contrário, ele desempenhava muito bem suas funções, de forma tão discreta que muitas pessoas passavam por ele sem nem perceber. Isso era facilmente notado nas marcas deixadas no piso. Mas a questão era que, pelo valor gasto, o novo tapete deveria ser espetacular. Quem sabe não seria algo que cobrisse todo o hall de entrada. Ou melhor, um tapete tão especial que lustra seus sapatos enquanto você caminha por ele. Ou, talvez, um tapete que limpe a casa, o carro, sirva almoço, lave e passe. Eu mal podia esperar para vê-lo. Cheguei a passar noites em claro imaginando as maravilhas desenhadas na superfície. Sonhava que ele me levava para passear e visitar as maravilhas do mundo. Voando pelo planeta eu era o próprio Aladin. Fiquei até preocupado com a possibilidade de termos tamanha magnificência furtada numa noite dessas.
Dois meses se passaram e, de entrada no meu prédio, cruzo com o síndico, sorridente, estufado, pomposo saindo do elevador:
-Bom dia. E aí seu síndico, quando vamos ter o famoso tapete a ornamentar nosso humilde condomínio?
-Mas ele já está ali, meu rapaz. Você não viu?
Congelei embasbacado. Era pegadinha? Como podia, eu passei pelo tapete e não o vi? Busquei rapidamente refazer meu caminho com os olhos, não o encontrei, busquei as paredes (tem gente esquisita que gosta de pendurar tapetes em parede), também nada, comecei a me desesperar, haveriam-no roubado, antes mesmo que eu tivesse desfrutado de sua beleza? Não era possível. Cogitei, pela sua beleza e funcionalidade sem igual, ser algo destinado aos deuses e, por isso, invisível aos olhos humanos. Não sei, não sabia, não saberei, a crise existencial me tomou violentamente, eu já tentava lembrar o telefone do meu analista quando ouvi:
-Aquele ali, ali mesmo...
Venci a vertigem e recobrei os sentidos.
-Você limpou os pés nele quando entrou.
-Você tá falando do tapete de pentelhos?
-Como é?
-Você tá falando do capacho, velho, gasto, que está aí há tempos?
-Como assim? O tapete é bom! Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca.
-Pela fortuna que você gastou, bom não basta!
-Hã? Lembre-se meu jovem: beleza não põe a mesa.
-Mas...
-A palavra é prata, o silêncio é ouro.
Entrei no elevador. Ele demorou a fechar a porta. Saí e subi dez andares de escada, de tão consternado que fiquei. Não consegui me lembrar de nenhum provérbio que o mandasse para puta que pariu. Há momentos em que a sabedoria popular é polida demais.
A obra de arte, que deveria logo estar "disponível", como dizia o e-mail, não apareceu. Continuei minha rotina, cansada, suada, desgastada, de limpar os pés num capacho qualquer. Um capachinho simples de vinil, prático e eficiente na porta de entrada, daqueles que parecem pelos pubianos de borracha.
| Capacho de vinil |
Dois meses se passaram e, de entrada no meu prédio, cruzo com o síndico, sorridente, estufado, pomposo saindo do elevador:
-Bom dia. E aí seu síndico, quando vamos ter o famoso tapete a ornamentar nosso humilde condomínio?
-Mas ele já está ali, meu rapaz. Você não viu?
Congelei embasbacado. Era pegadinha? Como podia, eu passei pelo tapete e não o vi? Busquei rapidamente refazer meu caminho com os olhos, não o encontrei, busquei as paredes (tem gente esquisita que gosta de pendurar tapetes em parede), também nada, comecei a me desesperar, haveriam-no roubado, antes mesmo que eu tivesse desfrutado de sua beleza? Não era possível. Cogitei, pela sua beleza e funcionalidade sem igual, ser algo destinado aos deuses e, por isso, invisível aos olhos humanos. Não sei, não sabia, não saberei, a crise existencial me tomou violentamente, eu já tentava lembrar o telefone do meu analista quando ouvi:
-Aquele ali, ali mesmo...
Venci a vertigem e recobrei os sentidos.
-Você limpou os pés nele quando entrou.
-Você tá falando do tapete de pentelhos?
-Como é?
-Você tá falando do capacho, velho, gasto, que está aí há tempos?
-Como assim? O tapete é bom! Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca.
-Pela fortuna que você gastou, bom não basta!
-Hã? Lembre-se meu jovem: beleza não põe a mesa.
-Mas...
-A palavra é prata, o silêncio é ouro.
Entrei no elevador. Ele demorou a fechar a porta. Saí e subi dez andares de escada, de tão consternado que fiquei. Não consegui me lembrar de nenhum provérbio que o mandasse para puta que pariu. Há momentos em que a sabedoria popular é polida demais.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Experiências Highlander no SUS
A inocência foi perdida.
Você liga para o SAMU, chama a ambulância e quarenta minutos depois ela ainda não veio. O SAMU é para emergências! Você liga e reclama "pô, liguei chamando a ambulância há quarenta minutos e ainda nada", "o paciente ainda está respirando?", "sim", "então não era emergência, bota ele num taxi e manda pro hospital".
Já não faz sentido. É ácido lisérgico o SUS.
A atendente te pergunta: "o que você tem, senhor?", "bom, lindinha, se eu soubesse não tava aqui, tava num consultório", "Mas o que você está sentindo?", "nesse momento, ódio".
Nem hospital particular está salvando mais. Pelamordedeus, manda um cubano lá pra casa!
Após um dia inteiro de febre, sentado numa cadeira desconfortável, o braço cheio de furos e sem almoço, acho que posso integrar as forças de paz da ONU. Sou o próprio Highlander. Sair vivo dessa nem o Rambo. Só o Chuck Norris, que não é humano. Highlander tinha uma espada, né? Tô tão debilitado que só posso carregar um estilete. Ou um alicatinho de cutícula. "Vou combater o mal com meu alicatinho de cutícula". Isso é coisa de herói socialite. Formar uma liga da justiça com a Narcisa e a Val Marchiori. A Narcisa joga ovo enquanto a Val xinga o vilão de pobre cafona.
Só fui encaminhado para um leito depois da novela das 8. Acho que estavam esperando acabar para dar entrada nos meus papéis. Do médico não havia nem sinal, e eu já havia sido diagnosticado e receitado por cinco pacientes e três acompanhantes.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Déficit de Atenção
Ai já descobrem que o Luizinho tem problema de atenção. Só pode. Aquele moleque não para quieto. Ai você fez aquele peixe que você falou? É déficit de atenção! Tô fazendo um curso sobre isso... Sobre o que vocês estão falando? Ah, é do Luizinho, aquele moleque endiabrado. Mas, também, ele mal sabe ler. É filé de tilápia. Pois é, é por causa do TDAH. O que é isso? É déficit de atenção, eu vi no curso que to fazendo. Ai, e aquela receita que você ia trazer? O Luizinho não pára, não dá sossego. Ah, eu mando logo ele copiar três páginas que ele fica sentado e não atrapalha, pelo menos. Mas e a receita, vai muito sal? O déficit de atenção é duro, prejudica muito o desenvolvimento. É do Luizinho, né? Isso! Ele tem déficit de atenção, ela viu no curso. É eu to fazendo um curso. Sobre déficit de atenção? E a receita? escreve ela num papel pra mim? Oi diretora, tudo bem? Gente ela precisa dar um recado. Mas o Luizinho não deixa a gente dar recado na sala. Xii, se tentar parar o pessoal pra dar recado é aí que pega fogo. Fogo? A receita fica quanto tempo? Quem fez o curso de atenção? Ai menina, já falei que não vai no fogo, é marinado, cozinha no limão. Mas o Luizinho nem isso conseguem entender, se disser marinado é capaz de dar um peteleco na Marina. A diretora quer falar! E tava fazendo o peixe mas parei na hora da novela. Gente e a Pilar que pegou o Cesar com a Aline? Ah, jura? Ontem não assisti novela, fiquei preparando material pro Luizinho. A diretora tá esperando! Sim, a gente estava falando que aquele moleque deve ter TDAH. Já tem laudo? Que laudo? Tem alguém doente? O Luizinho. Mas isso é doença? A diretora quer falar! E o que a Pilar fez? Mandou o Luizinho embora. O Luizinho? Não, o César! Olha lá, ele deixa a gente louca. É, aquele Antonio Fagundes é uma loucura!
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Democraticamente
Democraticamente ele foi eleito deputado federal (assim mesmo, em minúsculas, que é a moral dele para assumir tal função). Democraticamente usou o microfone para espalhar preconceitos democráticos contra as minorias; afinal ele tem direitos, liberdade de expressão e tudo mais. Democraticamente ele não entrou para a comissão que foi convidada a visitar as instalações do antigo DOI-Codi, onde nada democraticamente se torturava pessoas democráticas. Aí então, ele, democraticamente, resolveu forçar entrada, reivindicando para si direitos de ir e vir e liberdades constitucionais; afinal, se a regra para entrar era ter sido convidado, ele podia, democraticamente, burlar a regra, como todas as pessoas o fazem diariamente. Ao ser, democraticamente, impelido a seguir as normas, ele deu um soco bem democrático na costela de um Senador (que é um soco distribuído em todos os trens e ônibus lotados, em todos os hospitais sucateados e em todas as contas superfaturadas), também eleito democraticamente. Depois ele foi à mídia democrática e explicou bem democraticamente que havia apenas empurrado "aquele lixo de parlamentar que defende aqueles lixos de minoria, de pobre e de trabalhadores". E, democraticamente, a notícia se espalhou. E, democraticamente, as pessoas formaram opiniões. E, democraticamente, alguns apoiaram o agressor democraticamente cretino; afinal, ser cretino é direito natural, subjacente, de qualquer indivíduo. E, democraticamente ele se promoveu e, democraticamente, receberá votos para continuar um representante democrático. Masperaí, ele não defende a ditadura?
terça-feira, 17 de setembro de 2013
éééé doooo Brasil sil sil...
A espionagem dos EUA no Brasil revela ao mundo uma característica horrível dos norte-americanos, espionar a Dilma é uma tara nojenta! Se tivessem espionando a Debora Secco vá lá, mas a Dilma? É inconcebível! Fontes seguras afirmam que isso destruiu a auto-estima da Michelle Obama que se sentiu comparada à presidenta. Ela declarou "que fosse, pelo menos, a Taís Araújo".Por causa dos acontecimentos, a visita de Dilma aos EUA foi adiada em decisão conjunta, na verdade o Obama lembrou que ela tinha consulta no médico. Agora é assim: o Obama tem que ficar lembrando compromissos e contatos da agenda da presidenta. O cara tá virando secretário dela!
Vazou um documento no Wikileaks, que a monitoração do governo brasileiro foi ideia de um especialista em políticas públicas da Casa Branca. Eles estão tão ferrados que começaram a espionar o Brasil, para se sentirem melhor. É uma questão de auto-estima. Eles estavam se achando ferrados, com problemas de dívida pública, problemas na saúde, emprego, educação, segurança. A ideia foi brilhante "Olha o Brasil, Obama. A gente podia estar pior!".
Espionando o Brasil, rolou uma proposta da Casa Branca, que na verdade soa mais como uma ameaça: se a Síria não entregar as armas químicas, vamos montar um governo provisório brasileiro lá. O Brasil vai se dar bem nessa! Vamos exportar as tranqueiras e depois a gente faz o programa Mais Políticos. Vamos encostar os nossos e trazer os de fora. É bem mais barato e eficiente!
Você manja que aqui somos peritos em administração e gerenciamento. O único problema é o calendário Ele nunca respeita o tempo dos políticos. O tempo passa muito rápido aí quando o problema vai ser resolvido, já se passaram vinte anos. Mas nossos dirigentes estão se esforçando. Logo eles melhoram e serão promovidos a juízes, aí as coisas demorarão trinta anos.| Eu te conheço... Noé, certo? |
Gente, o curriculo do cara é de assombrar: foi vereador dos Integralistas, deputado pelo ARENA, advogado de Barrabás e imediato de Noé.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Carnaval fora de época
| Village People |
Com essa mania de ser literal, o povo brasileiro leu na fachada "casa do povo" e resolveu entrar na Câmara. Foram recebidos com confetes, serpentinas e espuma pelo "bloco dos astronautas". O carnaval fora de época é marca registrada nas festividades brasilienses, ocorre durante o ano todo na Esplanada.
Além desse bloco, há o do "bolso cheio" e "mascarados", há também o das "amadas amantes" e, inclusive o do "arco-íris em preto e branco", que sempre ora pela verba alheia.
Mas a entrada é limitada. O presidente da casa explicou que o tratamento dado aos visitantes é diferenciado pois o carnaval contempla eleitos e eleitores, cada um a seu tento. "Foliões visitantes serão proibidos de usar máscaras no baile. Essa é prerrogativa apenas dos representantes" avisou o líder da bancada.
Um grupo de artistas fantasiados, e sem máscaras, levou a galera ao êxtase com o cover do Village People, no hit YMCA. Até o pipoqueiro do salão se envolveu na dança.
No plenário, o bloco dos mascarados elogiou a interação do público com a casa de shows. Se disseram emocionados pelo reconhecimento do trabalho duro desenvolvido ao longo do mandato e agradeceram a confiança depositada em votos secretos.
"O povo brasileiro vem dando uma grande lição de inclusão e tolerância, mantendo um presidiário como 'funcionário' da nação", declarou um dos políticos.
Quanto à acusação de que a folia estava extrapolando e beirando à quebra de decoro, o presidente do clube respondeu: "decoro e regras são feitos para serem quebrados, desde que de forma ordenada e pacífica, com as porcentagens bem definidas. Só não pode vandalizar"
Foi uma bela festa, que durará o resto do ano e, quiçá, do mandato. Todos terminaram em clima de congraçamento.
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