Google+ O Riso e o Siso

quarta-feira, 5 de março de 2014

Tá com dó? Adote um bandido...

Desembargador escreve texto propondo que aqueles que defendem os Direitos Humanos devem adotar um bandido, assim acabaríamos com o problema carcerário.
É ótimo e fácil inverter o problema. O culpado joga a culpa na vítima e essa que se vire para resolver o problema. O texto é tão bom e de raciocínio tão elaborado que é viral. Todo mundo compartilha.
Aproveitando o embalo, um médico escreve também que quem reclama do SUS deveria adotar um doente.
O diretor da escola também aproveitou a deixa e quem reclamar da educação, que leve o aluno para casa.
Quem reclamar do asfalto, que ande de carroça, completou o Secretário de Obras.
Quem reclama direito trabalhista, que adote um escravo.
E quem reclamar de políticos, que adote uma puta, porque os filhos estão bem empregados.
Agora, quem reclamar de desembargadores cretinos que tome Lexotan, porque essa gente não tem conserto nem levando pra casa...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Vida de Condomínio: Acessibilidade

Uma das maiores preocupações da construtora e, agora, da administradora, é com a acessibilidade. Há rampas em várias partes do condomínio. Cada torre tem, pelo menos, dois apartamentos destinados a portadores de necessidades especiais de modo que, embora não estejam com ocupação total, podemos contar, no mínimo, seis moradores nessas condições. É lindo! Apesar de serem apenas seis dentre duzentas famílias, podemos ter orgulho de bater no peito e jogar na cara dos condomínios vizinhos: “Nós somos politicamente corretos!”.
Tá certo que no dia do sorteio das vagas foi um pegapracapar que até questionaram a localização dessas vagas. Defenderam que elas deveriam entrar no sorteio e que rezassem para cair próximo ao edifício. Felizmente, o bom senso venceu e as vagas foram estrategicamente colocadas próximas às portas de entrada.
Além disso, investimos também em atividades físicas para esses moradores especiais. Quer dizer, o custo é zero, não chega a ser um investimento, mas um incentivo. Quer dizer, não é bem um incentivo, é um imperativo, uma obrigação. Funciona mais ou menos assim: o cara compra o apartamento no térreo porque é da cota de acessibilidade; a vaga é pintada com aquele símbolo azul e branco, bem próxima à porta; a construtora põe uma rampa praticamente saindo da porta do prédio, mas a outra ponta da rampa fica há uns duzentos metros da vaga. Você precisa atravessar todo o estacionamento para acessar a rampa com sua cadeira – a menos que ela venha equipada com o modo Off-road 4x4, para atravessar o gramado, os pedregulhos e escalar o morro que separam o estacionamento do edifício.
É interessante o conceito. A construtora deu todo o suporte e infraestrutura para que os condôminos pratiquem exercícios. Imagina: o cara sai com a cadeira de rodas, vai até lá na frente e volta, percorrendo uns quatrocentos metros por dia, só para entrar no carro que está há menos de três metros da sua porta. Só me intriga pensar no caso dele esquecer as chaves do carro. Outra coisa é a falta de espaço nas laterais. Acho que eles se arrastam para sair pelo porta-malas.
Juro que um dia vi um deles bater recordes de velocidade para fugir da chuva, já que a rampa fica a céu aberto. Só acho injusto ele poder passar dos vinte quilômetros por hora e a gente não.

Aliás, é impressionante a perseverança do seu Olavo, morador do sétimo andar que teve um derrame. Ele agora precisa de um andador para se locomover. Todos os dias ele sobe e desce a rampa para se exercitar. Deduzo que sejam orientações médicas, já que ele não consegue mais falar. Ato realmente heroico se pensarmos que ele leva uns cinco minutos para percorrer um metro, vezes quatrocentos (ida e volta da rampa), dá quase trinta e quatro horas de caminhada! Nunca consegui acompanhar a volta completa. Já me sentei na sacada por algumas vezes, mas caio no sono em poucos minutos. Qualquer dia passo de carro e ofereço carona para agilizar.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Todos exigimos respeito

O policial, enfezado com a multidão protestando, ordena que retornem para suas casas e arrumem outra forma de protestar. Ninguém atende, ninguém da atenção à sua autoridade. Ele desce o sarrafo na galera. Ele só está fazendo seu trabalho. Ele exige respeito. O ladrão, depois de preso, espera bom tratamento das autoridades, quer ser tratado como gente, exige seus direitos respeitados, exige respeito. Ele só estava fazendo seu trabalho. Ambos oram para Deus no início do dia e sempre emendam um “se Deus quiser” no fim das frases. O mesmo Deus que ajuda o bandido ajuda o policial.
Assim como o professor que obriga a sala a orar, apesar da educação laica, e pede ajuda de Deus para um bom dia de trabalho, faz piadas machistas, homofóbicas, racistas, não perde a chance de ressaltar a pobreza do aluno, abusa de sua autoridade chantageando notas, pede atenção para a sala, xinga, grita e exige respeito. Também o aluno picha, destrói, rabisca quebra a sala de aula, atrapalha a explicação, desdenha da escola e do trabalho do professor exige seus direitos, protesta para ser respeitado.
A caminho de casa presenciei um motoqueiro acelerar na curva, derrubar um ciclista, alcançar o carrão de luxo mais à frente e iniciar uma discussão por causa de uma manobra imprudente cem metros atrás. O carro tinha um símbolo cristão na traseira. O motoqueiro foi tirar satisfação. Sua vida foi posta em risco. Ele estava exigindo respeito.
A feminista engajada sai do mercado - linda e loira - e entra em seu carro estacionado na vaga de deficientes. Ela sempre fala da bíblia. Ela é saudável. Ela luta por respeito.

Todos exigem respeito.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Diferenças entre meninos e meninas

Litros de tintas são desperdiçados, de tempos em tempos, tentando explicar a diferença entre meninos e meninas. Há os que apostam nas discordâncias, como o célebre "Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus". Há os que apostam na atração, como o "Por que os homens amam as mulheres poderosas" e há obras científicas, isentas e equilibradas como a Bíblia Sagrada.
Como esse parece ser assunto que rende best sellers, nosso humilde blog não poderia deixar de beliscar esse filão.
Claro que o assunto não é fácil, a conclusão não é simples e demanda anos e anos de estudos, testes, análises e músicas do Chico Buarque, mas não é uma tarefa impossível. A prova disso é que hoje mesmo, passando pelo jardim do condomínio, pude observar duas crianças de sexos opostos, com comportamentos bem estereotipados e psicografei uma brilhante conclusão.
Tenham essas palavras sempre em mente, caros leitores, quando estiverem lidando com indivíduos do sexo oposto, num momento de conflito, discordância ou exaltação pela atenção gasta com o Playstation, o jogo de futebol, o carteado, o filme do Bruce Lee - pela décima oitava vez na Tela Quente, exibindo selo de inédito na propaganda - em oposição ao Shopping, à louça na pia, à novela, ao Shopping de novo e ao penteado-super-inovador-que-se-parece-com-o-anterior-mas-que-tem-um-dedo-a-menos.
A fonte de toda indignação, todo beicinho, toda manha, discussão, homicídios e suicídios entre sexos opostos reside no simples fato de que cada gênero compartilha com seus semelhantes, uma visão muito peculiar do que significa ser uma pessoa adulta, independente, madura e dona de si.
Enquanto os meninos imaginam que atingirão esse estágio após terem trabalhado, juntado dinheiro, comprado um foguete, ultrapassado a velocidade do som, viajado para Marte, fincado uma bandeira em solo alienígena e baixado as calças para urinar e perpetuar sua cadeia genética fora da Terra. A meninas pensam que atingirão tal estágio quando conseguirem dar os três passinhos e alcançar o outro sofá.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Vida de condomínio: Sabedoria popular

Há cerca de dois meses um e-mail me assombrou com um item na coluna de gastos, indicando mil e seiscentos reais com quatro tapetes. Era a prestação de contas do condomínio. Os quatro tapetes seriam postos um na entrada de cada torre. Depois do assombro, veio a curiosidade. Vejam bem: mil e seiscentos reais não é para qualquer tapete. Eu desejava muito apreciar a obra exposta no hall do edifício.
A obra de arte, que deveria logo estar "disponível", como dizia o e-mail, não apareceu. Continuei minha rotina, cansada, suada, desgastada, de limpar os pés num capacho qualquer. Um capachinho simples de vinil, prático e eficiente na porta de entrada, daqueles que parecem pelos pubianos de borracha.
Capacho de vinil
Não havia registros nos anais do condomínio de reclamação contra o capacho de pelos pubianos. Pelo contrário, ele desempenhava muito bem suas funções, de forma tão discreta que muitas pessoas passavam por ele sem nem perceber. Isso era facilmente notado nas marcas deixadas no piso. Mas a questão era que, pelo valor gasto, o novo tapete deveria ser espetacular. Quem sabe não seria algo que cobrisse todo o hall de entrada. Ou melhor, um tapete tão especial que lustra seus sapatos enquanto você caminha por ele. Ou, talvez, um tapete que limpe a casa, o carro, sirva almoço, lave e passe. Eu mal podia esperar para vê-lo. Cheguei a passar noites em claro imaginando as maravilhas desenhadas na superfície. Sonhava que ele me levava para passear e visitar as maravilhas do mundo. Voando pelo planeta eu era o próprio Aladin. Fiquei até preocupado com a possibilidade de termos tamanha magnificência furtada numa noite dessas.
Dois meses se passaram e, de entrada no meu prédio, cruzo com o síndico, sorridente, estufado, pomposo saindo do elevador:
-Bom dia. E aí seu síndico, quando vamos ter o famoso tapete a ornamentar nosso humilde condomínio?
-Mas ele já está ali, meu rapaz. Você não viu?
Congelei embasbacado. Era pegadinha? Como podia, eu passei pelo tapete e não o vi? Busquei rapidamente refazer meu caminho com os olhos, não o encontrei, busquei as paredes (tem gente esquisita que gosta de pendurar tapetes em parede), também nada, comecei a me desesperar, haveriam-no roubado, antes mesmo que eu tivesse desfrutado de sua beleza? Não era possível. Cogitei, pela sua beleza e funcionalidade sem igual, ser algo destinado aos deuses e, por isso, invisível aos olhos humanos. Não sei, não sabia, não saberei, a crise existencial me tomou violentamente, eu já tentava lembrar o telefone do meu analista quando ouvi:
-Aquele ali, ali mesmo...
Venci a vertigem e recobrei os sentidos.
-Você limpou os pés nele quando entrou.
-Você tá falando do tapete de pentelhos?
-Como é?
-Você tá falando do capacho, velho, gasto, que está aí há tempos?
-Como assim? O tapete é bom! Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca.
-Pela fortuna que você gastou, bom não basta!
-Hã? Lembre-se meu jovem: beleza não põe a mesa.
-Mas...
-A palavra é prata, o silêncio é ouro.
Entrei no elevador. Ele demorou a fechar a porta. Saí e subi dez andares de escada, de tão consternado que fiquei. Não consegui me lembrar de nenhum provérbio que o mandasse para puta que pariu. Há momentos em que a sabedoria popular é polida demais.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Experiências Highlander no SUS

Duas semanas doente, uma semana no hospital. Não consigo mais escrever. Acho que perdi a graça. "Eu vi coisas, eu fiz coisas. Eu experimentei sangue humano e o gosto é bom!".
A inocência foi perdida.

Você liga para o SAMU, chama a ambulância e quarenta minutos depois ela ainda não veio. O SAMU é para emergências! Você liga e reclama "pô, liguei chamando a ambulância há quarenta minutos e ainda nada", "o paciente ainda está respirando?", "sim", "então não era emergência, bota ele num taxi e manda pro hospital".
Já não faz sentido. É ácido lisérgico o SUS.

A atendente te pergunta: "o que você tem, senhor?", "bom, lindinha, se eu soubesse não tava aqui, tava num consultório", "Mas o que você está sentindo?", "nesse momento, ódio".
Nem hospital particular está salvando mais. Pelamordedeus, manda um cubano lá pra casa!

Após um dia inteiro de febre, sentado numa cadeira desconfortável, o braço cheio de furos e sem almoço, acho que posso integrar as forças de paz da ONU. Sou o próprio Highlander. Sair vivo dessa nem o Rambo. Só o Chuck Norris, que não é humano. Highlander tinha uma espada, né? Tô tão debilitado que só posso carregar um estilete. Ou um alicatinho de cutícula. "Vou combater o mal com meu alicatinho de cutícula". Isso é coisa de herói socialite. Formar uma liga da justiça com a Narcisa e a Val Marchiori. A Narcisa joga ovo enquanto a Val xinga o vilão de pobre cafona.

Só fui encaminhado para um leito depois da novela das 8. Acho que estavam esperando acabar para dar entrada nos meus papéis. Do médico não havia nem sinal, e eu já havia sido diagnosticado e receitado por cinco pacientes e três acompanhantes.

Quando, finalmente, me deitaram numa maca, ao lado de outras duzentas e trinta e sete macas, cada uma com um enfermo gemendo, ao meu lado um jovem de uns noventa e sete anos se esticava, virava, gemia, resmungava. A noite seria longa. Percebi uma luz forte se aproximando, abrindo passagem pelo teto. Ela vinha serena, aquecia e enchia a gente de paz. Uma voz grave, firme e bondosa soou: "Américo? Américo Neto? É você?" Era, mas ele não se identificou. Hoje em dia não dá para confiar em qualquer voz que se ouve por aí. Tá assim de caso de gente que é enganada porque ganhou no Baú, porque ganhou um carro, porque um parente foi sequestrado. Prontamente apontei para o senhorzinho deitado na maca ao lado. "Chegou sua hora, vamos". Tive a impressão de vê-lo flutuar em direção à luz, mas acho que não, ele pegou num sono tão gostoso, tranquilo, nem se mexia.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Déficit de Atenção

Sala dos professores, as senhorinhas se reúnem na hora do intervalo para trocar figurinhas e diagnosticar alunos:
Ai já descobrem que o Luizinho tem problema de atenção. Só pode. Aquele moleque não para quieto. Ai você fez aquele peixe que você falou? É déficit de atenção! Tô fazendo um curso sobre isso... Sobre o que vocês estão falando? Ah, é do Luizinho, aquele moleque endiabrado. Mas, também, ele mal sabe ler. É filé de tilápia. Pois é, é por causa do TDAH. O que é isso? É déficit de atenção, eu vi no curso que to fazendo. Ai, e aquela receita que você ia trazer? O Luizinho não pára, não dá sossego. Ah, eu mando logo ele copiar três páginas que ele fica sentado e não atrapalha, pelo menos. Mas e a receita, vai muito sal? O déficit de atenção é duro, prejudica muito o desenvolvimento. É do Luizinho, né? Isso! Ele tem déficit de atenção, ela viu no curso. É eu to fazendo um curso. Sobre déficit de atenção? E a receita? escreve ela num papel pra mim? Oi diretora, tudo bem? Gente ela precisa dar um recado. Mas o Luizinho não deixa a gente dar recado na sala. Xii, se tentar parar o pessoal pra dar recado é aí que pega fogo. Fogo? A receita fica quanto tempo? Quem fez o curso de atenção? Ai menina, já falei que não vai no fogo, é marinado, cozinha no limão. Mas o Luizinho nem isso conseguem entender, se disser marinado é capaz de dar um peteleco na Marina. A diretora quer falar! E tava fazendo o peixe mas parei na hora da novela. Gente e a Pilar que pegou o Cesar com a Aline? Ah, jura? Ontem não assisti novela, fiquei preparando material pro Luizinho. A diretora tá esperando! Sim, a gente estava falando que aquele moleque deve ter TDAH. Já tem laudo? Que laudo? Tem alguém doente? O Luizinho. Mas isso é doença? A diretora quer falar! E o que a Pilar fez? Mandou o Luizinho embora. O Luizinho? Não, o César! Olha lá, ele deixa a gente louca. É, aquele Antonio Fagundes é uma loucura!