
Por Dr. Delfino Anfilófio Petrúcio, palhaço, paraguru
filosofático de Quinta Categoria, PhD em Charme, Beleza, Elegância e Gostosura,
graduado pela Universidade de Modéstia, com pós-especialização em Coisíssima
Nenhuma e doutorado em Algo Mais
Como vimos no capítulo anterior, DaVinci choramingou,
enfiando o rabo entras as pernas e, nem sequer ganindo aquele chororô de fome,
meteu o focinho entre as patas e assim ficou. Pela primeira vez, naquele
furdúncio todo que Dom Vespúcio, meu editor, jamais teve a capacidade de
imaginar que um dia sua mansarda pudesse servir de cenário, o povo se uniu,
misturando as falanges opositoras em uma ovação a Gandhi, trazido por dona
Bherta, minha secretária, por meio da minha máquina do tempo. Assim, o silêncio
se fez de forma respeitosa e deslumbrada quando o mais pop de todos os mahatmas
apontou para um teco de mar ao longe, e perguntou:
– Que águas são aquelas?
– Do mar da Praia Vera Cruz, ô guru! – respondeu um gordão,
rindo só com dois dentes em baixo. – Vai arriscá um mergúio, vai? – Sigam-me.
Vamos tirar o sal daquelas águas...
Partimos todos em fila, atrás do líder hindu. Genecésico
Fofo Pessoa, meu amigo, branco feito cera, nunca o vi assim. Suas gotículas
costumeiras de suor na testa já pingavam caudalosamente.
– Calma, Fofo! Assim que eu despachar esse figurão pro seu
tempo, e atender a todos os agendamentos já feitos por dona Bherta, aquela
minha secretária trapalhona, eu mando essa máquina do tempo pro ferro-velho,
prometo!Quer dizer, não posso fazer isso antes de desp achar Paulo...
– Qual Paulo? O Maluf?
– Credo, olha o respeito, que pode ter criança lendo esse
conto...
– Então que Paulo, Delfino?
– O de Tarso...
– O das Epístolas?!
– É, coitado...
– Meu Deus do céu, que show! E cadê ele? Coitado por que?
– Mais uma vítima de dona Bherta...
– Ô, tadim...
Então, enquanto Gandhi seguia à frente do cortejo rumo às
águas daquela praia imunda, decidido a ensinar aquele povo embebedado a tirar
sal do mar, eu chamei para perto de mim dona Bherta, que veio acompanhada do
pobre DaVinci, que já babava sem controle, tamanha era sua fome, e pedi que ela
própria me ajudasse a contar a Fofo sua última travessura com minha máquina do
Tempo.
– Ah, mas que bobagem, doutor. Coisica de nada!
– De nada, dona Bherta?! – retruquei eu, já enfezado por
conta das gracinhas que o povo já ia tecendo acerca do grande mahatma
(“cotonete de elefante!”, “cabeça de alfinete com óculos!”, “isso é que é
fraldão de primeira, hein!” e asneiras desse tipo). – A senhora acha que ir até
o ano 55 da nossa era e sequestrar Paulo de Tarso tenha sido uma “bobagem”, é?
– Ára, que exagero! Sequestrar! Eu salvei o homem, doutor...
Achei que seria bom ele dar uma palavrinha com o senhor, que é tão letrado,
bonito, elegante e charmoso... Um pitéu, deuzabencô dona Atadolfa, paiaça de
sorte!
– Meu pai eterno! – atalhou Fofo – Que foi que a senhora fez
com o grande Paulo, dona Bherta?
– Salvei o despreparado! – respondeu ela, estufando com
orgulho o próprio peito, olhar pousado nas nuvens, certamente à espera de um
coro de anjos aplaudindo-a. – Pois bem, tudo começou quando eu quis aproveitar
a hora do lanchinho do doutor, que é quando ele vai até o Botequim Solar tomar
uma dose dupla de sol da tarde sem gelo e com duas rodelas de limão, pra dar um
pulinho rápido lá atrás e colocar uns bons pingos nos is...
– Voltar pra onde, dona Bherta?! – perguntou Foro, empenhado
em desencalacrar DaVinci, que, na sua perna direita, buscava um pouco de prazer
para compensar o vazio do estômago.
– Ah, seu Fofo! O senhor acha mesmo que eu ia perder a
chance de salvar aquele rapaz daquilo tudo?
– Rapaz?...
– Sim, Fofo, Ele mesmo, o próprio! – atalhei eu,
rapidamente, já sentindo o ar impregnado do cheiro horroroso que vinha daquele
mar assassinado pelo esgoto, coisa que, aliás, o próprio Gandhi já parecia ter
notado, já que parara a Marcha e tamborilava o próprio carecão com as pontas
dos dedos da mão esquerda...
– Como eu não tinha muito tempo, seo Fofo, planejei
tim-tim-por-tim-tim, pra dar tudo certinho de estar de novo na recepção do
consultório antes do doutor voltar do intervalo, porque a consulta seguinte ia
ser do seo Dom Vespúcio, que andava muito deprimido com as injustiças do
mundo...
– Vá logo ao ponto, dona Bherta, que não temos a tarde toda!
– esbravejou Fofo Pessoa, surpreendendo até mesmo a mim, que o conheço a quatro
existências... e meia! Até DaVinci se desvencilhou e abandonou sua perna...
– Bem, minha ideia era chegar de mansinho no Jardim das
Oliveiras e botar um sonífero na taça de vinho do seo Judas Iscariotes...
mas...
– Mas?
– Eu vivo dizendo pro doutor que tá na hora de mudar as
lentes do meu óculos, né mesmo, doutor Delfino?
– Ela digitou o ano errado e foi parar no 55, Fofo! Saiu
andando às tontas e deu de cara com Tarso, que acabara de escrever sua primeira
carta e ia passar ao passo seguinte, como era de seu hábito, que era ler em voz
alta antes de despachar ao seu destino...
– O senhor vê, né, seu Fofo, como é que é o Destino... Não é
que eu tropecei numa pedra, esbarrei no pobre do homem, nós dois perdemos o
equilíbrio e caímos juntos dentro da máquina do tempo bem na horinha exata que
ele ia começar a ler a tal da carta que ele tinha escrito?
– Meu Deus! Onde é que vocês dois vieram parar?
– Na sede da torcida Mancha Verde, Fofo – atalhei eu, já
impaciente e constrangido com o mal súbito que Gandhi acabou sofrendo por conta
do mau cheiro do mar – Foi bem no meio da Mancha Verde, que o coitado do Paulo
de Tarso bradou a plenos pulmões: “SALVE, Ó, CORINTIOS!!!”...
– Jesus-Maria-José!... E onde está ele agora...
– Internado na Santa Casa, doutor... – respondeu dona
Bherta, encabulada.
– Na ala do SUS, Fofo!
Sem que ninguém conseguisse contê-lo, e seguido por DaVinci,
enamorado de sua perna direita, Genecésico Fofo Pessoa saiu correndo em direção
ao mar...
(to be continued)
* Palhaço Delfino é o alter-ego do escritor Carlos Biaggioli
(biaggiolic@gmail.com)